o eco a dor ressoa...
o que me faz precisar desse blogue é a devastação que a minha arte me causa: essa tal arte que não dialoga através de inspirações serenas ou inquietações silenciosas; esse deus-cadela a quem chamamos de ideias, que me perturba, me asfixia, me condena a despir meus silêncios até que de minha nudeza só me sobrem os pêlos e os berros.
depois de minha primeira inquietude postada aqui, encarei isso tudo como um ponto de largada numa espécie de corrida de mim mesmo contra os meus eus. desde então, hesitei duas ou cem vezes em escrever com meus comigos, e nesse diálogo confuso, percebi que meu maior problema era escorregar na gastura de transformar esse lugar em um diário. senti que precisava dar uma voz a esse espaço e foi nesse empasse que me lembrei inevitavelmente do blogue do bráulio tavares, com aquela inconfundível voz fantasmagórica que me faz tê-lo, entre tantos bráulios, talvez o mais íntimo de mim.
não parei na escrita de bráulio. enquanto matutava sobre o meu próprio bloqueio, reparei que essa necessidade de dar sequência a qualquer coisa que eu possa chamar de produção é muito mais que uma necessidade artística, por assim dizer. sinto-me atingido por uma enfermidade caótica. invasiva. invisível. não produzir significa falhar em minha recuperação, e muitas vezes, é preciso buscar uma ajuda externa, um impulso qualquer que nos faça desatar os nós dos sapatos e nos resgate de volta à superfície. é aqui onde bráulio se levanta para que waly sailormoon possa se sentar.
para waly salomão, a quem vou roubar recorrer aqui para emergir dessas profundezas da inércia, a dor não parecia querer se dissipar, muito menos reverberar a ponto de desmontá-lo em angústias que acamariam o seu gênio de artista. é óbvio que a figura poética, expansiva e visceral de waly não se deixava abater, ou pelo menos nem diante dos olhos de um lince, encarcerado no famigerado carandiru, aparentava ser tomada por qualquer tipo de tristeza ou desmantelo de seu incansável e magnético poder artístico.
eu enxergo uma espécie de aberração misteriosa que me seduz e me perturba em waly, e tenho a certeza que não se resume àquilo que está escrito. mais parece estar ligado a essa reverberação contagiosa em sua poesia, essa rebeldia de incomodar a própria palavra a ponto de expurgá-la para fora do texto. toda a poesia de waly obriga a escancarar a boca, oprimir os músculos do rosto, reinventar os caminhos do corpo pelas mãos, ocupar uma sala, atravessar uma conversa, perturbar quem estiver por perto.
talvez toda essa violência me persiga de forma atraente porque minha escrita habita nos esgotos, nos escombros da insegurança e da vergonha, sobrevivendo em mim enquanto rasteja sob tudo aquilo que seja o avesso de minha liberdade artística. penso que esse isolamento não pode ser visto hoje, nos meus trinta e poucos anos, como uma espécie de pesar, simplesmente porque figuras como waly ainda têm a capacidade de fazer florescer qualquer fagulha de otimismo e até orgulho daquilo que serão as memórias das cordas vocais imaginárias da minha poesia.
foi durante esse hiperfoco em toda a expansividade artística sensual da tropicália, junto ao conceito de antropofagia que considero, de certa forma, até uma contramedida a essa subversão de uma gringalhada mais contida, que esbarrei no profundo abissal de onde nem sequer eu havia saído da borda: o limite da escrita.
quem disse que sou poeta?
uma vez me disseram que o tal do >fluxo de pensamento< era a essência da poesia. lembro também de ter visto um video de um protótipo de paulo leminski dizendo que a palavra escorria pelos dedos com a mesma fluidez e naturalidade que o orvalho escorria de... foda-se (?!!!) isso sempre me incomodou profundamente! vez ou outra, acabo sendo atingido por essas ideias contrárias a todo o processo de montagem da estrutura poética, como se esculpir, lapidar, montar um texto poético fosse um crime contra o natural, contra aquilo que vem da alma.
ora, se a poesia fosse mesmo somente o resultado de uma descarga torrencial e ininterrupta de ideias, seria quase preciso imaginar um poeta original numa espécie de psicografia, a depender dos sussurros, sem permitir que a ponta da caneta descansasse antes do último verso. acho que existe beleza e sensibilidade em quem é chamado pelas palavras, em quem é incomodado por uma ideia até que ela finalmente encontre um lugar pra ser parida, mas nunca entendi por que isso precisaria determinar também a forma definitiva daquilo que saiu. trocar uma palavra, deslocar um verso, mudar uma ênfase, desmontar alguma coisa para depois montá-la outra vez não me parece necessariamente um preciosismo ou uma rendição aos padrões estéticos.
isso se torna ainda mais estranho quando penso nos meus próprios poetas favoritos, que carregam para dentro do próprio texto coisas que dificilmente poderiam simplesmente "ter escorrido prontas pelos dedos". augusto dos anjos enfiava neuropsiquiatria, evolucionismo, monismo materialista e referências da biologia e da fisiologia dentro de uma poesia que nem por isso deixava de parecer profundissimamente febril e íntima. ele dava à luz a toda aquela violência após uma gestação muito bem cuidada, apesar de evidentemente doída. waly, por sua vez, atravessado pela influência concreta, brincava com a estrutura da palavra, carregava para a escrita referências filosóficas, científicas e até filológicas (a composição mel é um exemplo) sem perder aquele estado de combustão que faz tudo parecer ter acabado de acontecer. e talvez seja justamente por isso que me interessei tanto nessa personalidade que me instiga a criar de forma mais ativa e expansiva. era exatamente o exemplo que minha timidez artística precisava: alguém tão naturalmente anímico e performático falar, sem nenhum constrangimento, de um trabalho construtivista.
quem está falando é um borderline!
e é aqui que enxergo exatamente as bordas dessa linha de pensamento que me faz bambear: de um lado a esquisitice confusa dos meus versos imperfeitos, do outro, a irreverência da técnica e o zelo a tudo aquilo que satisfatoriamente beira a perfeição.
sempre fui fisgado por fulano ou ciclano que escrevia bem, apesar de nunca ter me aprofundado nos estudos sobre métrica e técnica. minha escrita sempre foi uma forma de me expressar quase que exclusivamente íntima, daquelas que depois do último verso, nem mesmo os grilos ousavam se pronunciar. nem por isso eu deixava de consumir e admirar os escritores, principalmente os poetas que dominavam com excelência esses atributos.
confesso que até tentei. tive meus momentos parnasianos e até me dediquei a algumas leituras que fariam de mim uma coisa-qualquer menos errática, mas acho que preferir seguir com essa vida de contraventor, nos tempos de hoje, vem me parecendo cada vez menos repugnante e me inserindo em um núcleo de escritores e leitores que não só ignoram alguns deslizes, priorizando a sensibilidade do que é dito, mas abraçam a ideia de associar a falha, o deslocamento e a imperfeição a uma atmosfera onde o belo pode habitar.
talvez esse fenômeno se explique justamente através desses tempos iluministas de IA, onde percebo algumas subversões curiosas relacionadas à ideia do erro. sinto que estou vivendo a rebeldia do verso: quanto mais a inteligência artificial promove produções de formas impecáveis, menos me constrange aquilo que de mim escapa, entorta ou simplesmente não obedece. há alguma coisa de profundamente vergonhosa começando a existir na perfeição, não naquilo que é belo ou rigorosamente construído, mas nessa perfeição plástica que parece ter sido privada até mesmo do próprio direito de tropeçar. e não falo daquela idiotice de caçar travessões ou quaisquer outros resquícios robotizados que já folclorizaram a dinâmica das interações. o que me perturba é uma forma inteira, cada vez mais correta, limpa e que já inaugura uma nova ideia de "falsa satisfação", ocupando tudo ao redor até que o desvio comece estranhamente a parecer precioso. talvez estejamos entrando num tempo em que um verso torto, uma escolha duvidosa ou alguma imperfeição que tenha escapado naturalmente do processo possa dizer muito mais sobre a presença e a alma de um escritor do que toda a correção que aprendemos durante tanto tempo a admirar.
por isso hoje, preciso recorrer a figuras como waly. porque em toda aquela desordem artística aparentemente impossível de conter havia também construção, e dentro de toda construção, havia rachaduras, buracos, desvios... alguma coisa continuava vazando, errando o caminho, acertando por acidente, errando querendo errar, acertando querendo errar, desmontando, revirando, se reinventando! sua poesia não me parece nunca repousar confortavelmente de um lado só: nem na rigidez, nem no descontrole; nem inteiramente na página, nem inteiramente do lado de fora. essa é exatamente a potência de transformar a escrita em infinitas possibilidades de erro e acerto que me faz enxergar com menos medo a borda onde eu mesmo continuo parado, entre a palavra que escapa e aquela que volto para buscar, entre a imperfeição que já não quero esconder e a forma que ainda faço questão de construir, entre o silêncio onde aprendi a escrever e essa vontade adormecida de finalmente berrar de algum jeito toda a arte que se envergonha em mim. o tempo vem me provocando justamente para que a percepção, entre erros e acertos, entre o belo e o grotesco me faça entender que não preciso decidir de que lado dessa linha pretendo viver, mas que existe uma graça cretina escondida nessa ideia nova de bambear sobre ela, atravessá-la, recuar, atravessá-la outra vez e fazer dessa instabilidade algum tipo de método, de rito, onde o todo de mim é absolutamente liberto e imperfeito.