desde que voltei de uma viagem cansativa e necessária de três (árduos) meses, a sensação de estar de volta aos velhos hábitos, aos mesmos móveis e aos mesmos cobertores vem me deslocando escancaradamente como se as esquinas, as tintas e as faces tivessem enfrentado o tempo com muito menos desgaste e violência do que aquilo que me atravessou enquanto estive fora.
talvez a primeira evidência indecente disso tudo nem tenha sido tão silenciosa assim. ao chegar, meus olhos famintos de saudade não foram buscar familiares, amigos, ou as recorrentes belezas do cotidiano anterior. meu primeiro reencontro foi com o meu dealer. antes mesmo de rever as minhas próprias roupas empoeiradas ou de revisitar tudo aquilo que sempre me abrigava e me confortava, minha carência maior se mostrou sorrateiramente ser direcionada ao homem que me fornece droga. não houve abraço, mesa posta, festejos ou qualquer solenidade doméstica capaz de disputar com ele a primazia de meu retorno.
acho que o problema em voltar esteja justamente nessa expectativa meio imatura de que regressar seja necessariamente
começar de novo, e não é. a gente chega carregando os mesmos nomes, os mesmos vícios, as mesmas manias de interrupção, e espera que uma mudança de cenário, um deslocamento temporário tenha feito sozinho o trabalho que não soubemos fazer por dentro.

eu já tentei começar isto aqui outras vezes (essa coisa de compartilhar, tentar fazer-me ser entendido ou simplesmente semear, como amiel). não aqui, obviamente. foram outros lugares, outras plataformas, outros nomes para a mesma vontade um pouco desesperada de juntar aquilo que penso antes que tudo se dissolva, e em algum momento eu sempre acabava desistindo. às vezes porque o lugar me parecia feio demais para continuar habitando ou simplesmente porque eu começava a desconfiar da importância do que estava escrevendo, quase sempre porque a primeira página já carregava a obrigação de uma segunda, e eu nunca fui particularmente bom em transformar entusiasmo em permanência (e vice-versa). desta vez eu queria começar sabendo disso, e se meus vizinhos quiserem saber, talvez seja essa a única novidade, além das flores da frança que meu dealer tem agora.

ainda assim, prometo me esforçar para que desta vez dure mais, e essa é uma contradição que prefiro chamar de amor. sinto-me impulsionado pela desgraçada agonia de quem um dia achou que não poderia florescer em versos ou queixumes, mesmo carregando em suas artérias a porra do éden inteiro! talvez amiel tenha engatilhado a ira dos meus jardins também porque pareço ter finalmente aceitado a escrita como mais uma forma de me exorcizar, mesmo sem saber ao certo o que sai e o que permanece depois desse ritual. foi procurando alguma companhia para esse (re)começo solitário que achei um amiel na casa dos cinquenta, e também justamente onde talvez fosse mais humano encontrá-lo: antes da obra, antes da posteridade, antes de qualquer grandeza: apenas um homem vendado sobre a própria página.
eu ainda nem tenho páginas suficientes para fracassar com a mesma dignidade. por enquanto, sou só o atraso.

🇫🇷 Teve alguns talentos, de alma e de espírito;
mas, de coração fraco e terno, calou-se e sofreu.